Se a unanimidade é burra, como dizia o grande jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, as generalizações são certamente ainda piores porque incidem no mesmo erro das opiniões unânimes, mas com o disfarce de coisa científica e, portanto, “comprovada”. Um exemplo dessas generalizações perigosas é o que temos visto sendo dito e escrito sobre a Geração Y, os jovens que chegam agora ao mercado de trabalho. Afirma-se, com frequência, que estes jovens são “flexíveis, assíduos usuários de Internet, dinâmicos, criativos e inovadores, que usam e compreendem as virtudes das redes sociais como ninguém”.
Embora muitos de nós acreditem que esse tipo de generalização é inócua, pois é fato que existem muitos profissionais experientes e veteranos que usam a Internet de modo ainda mais efetivo do que boa parte da juventude, a verdade é que ela se reflete no dia a dia das organizações, provocando certas acomodações e cristalizações que levam a erros e problemas que podem se tornar insuperáveis, tanto para os jovens quanto para os veteranos e, principalmente, para as empresas, que começam a acreditar em coisas que simplesmente não existem.
Exemplo dramático de como o mito acaba por se impor à realidade está no discursos acalentado por muitas empresas e profissionais do segmento de Recursos Humanos que afirmam, com toda a certeza, que o Brasil vive um “apagão de talentos”, ou seja, a inexistência de profissionais qualificados para determinadas atividades ou funções, qualificações estas que não estariam sendo encontradas nos jovens, muitos deles com formação educacional precária, ainda que sejam “bons de Internet”. Será verdade o fato de que não há gente qualificada no mercado?
Um estudo promovido pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP (FIPE), que considerou dados de desemprego por faixa etária e de educação desde o início dos anos 90, evidencia que os jovens sofrem mais em momentos de crise, mas está crescendo de modo estrutural, ou seja, constantemente, o desemprego de profissionais entre 49 e 70 anos ao longo das duas últimas décadas. O que isso significa?
Este lento fenômeno de “juniorização” dos times nas empresas, com a gradativa saída dos profissionais mais experientes, pode ser notado em praticamente todos os segmentos econômicos, das indústrias às empresas prestadoras de serviços, do comércio ao segmento financeiro. Na prática, o que vemos é uma substituição progressiva de profissionais mais experientes e que ganham mais, por outros menos experientes, que ganham
menos, muito embora sejam “bons de Internet”. Uma pesquisa desenvolvida pelo Ministério do Trabalho e Emprego na última década explica claramente a razão de ser desse fenômeno. O salário médio do brasileiro na última década, já descontada a inflação do período, não evoluiu, o que evidencia que a constatada “juniorização” das equipes tem razões financeiras, ou seja, é voltada para a redução de custos com pessoal, uma vez que as empresas demitem pessoas mais experientes e as substituem por pessoas menos experientes, muitas vezes terceirizadas, que vão ganhar menos.
As empresas que investem em “juniorização” de pessoal visando redução de custos tratam o seu capital humano como “despesa”, esquecendo-se do fato de que as atividades da companhia, não só as operacionais, mas principalmente as intelectuais, voltadas para decifrar a dinâmica do mercado, dependem de pessoas. Dessa forma, ampliar o número de jovens às custas da demissão dos mais experientes certamente levará ao empobrecimento da companhia, isso em um momento em que a competição exacerbada exige que as organizações tenham uma capacidade intelectual cada vez mais apurada.
Na verdade, muitas empresas buscam nos jovens uma experiência que eles ainda não têm e que poderiam conquistar de modo mais rápido e efetivo se convivessem com gente mais experiente nas empresas. Hoje vemos muitos profissionais experientes, talentosos, que participaram de histórias empresariais de sucesso, buscando trabalho com dificuldades de se colocar em função de idade e remuneração pretendida. A solução para este problema passa pela compreensão, especialmente por parte das empresas, de que pessoas, gente, capital humano, não podem ser considerados “despesas”, mas sim investimento, pois é da qualidade destes profissionais que depende o sucesso da organização.
O cenário ideal em uma empresa é a convivência produtiva entre diferentes gerações, de modo que uma aprenda com a outra. Dizer que só os jovens “entendem” de Internet é ignorar uma vasta legião de profissionais experientes que usam as redes sociais de modo muito efetivo pois já construíram redes de relacionamento sólidas, baseadas na inter-relação pessoal, algo que a juventude ainda precisará de tempo para fazer.
