Sempre que um interlocutor nos concede uma via de acesso, seja fornecendo seu cartão de visitas ou por meio da grande vitrine do mundo digital, um universo de possibilidades, desafios e riscos se descortina. Da negligência com a oportunidade de expandir o networking à ação consciente de aproveitar da melhor forma possível esta abertura para fortalecer vínculos, a atitude de cada um determina a qualidade da rede de relacionamentos e seu potencial para servir de anteparo ou trampolim na solução de problemas, tanto seus como dos demais elos da cadeia.
Em palestras sobre networking e gestão de carreira, costumo enfatizar que um cartão de visitas é muito mais do que um pedaço de papel com algumas informações impressas. Por trás dele há uma pessoa, com história de vida, experiência profissional, conhecimentos, contatos, afinidades. Lembro também que a troca de cartões pressupõe um contato pessoal e presencial. É certo que, em tempos de internet, uma interação até pode surgir no ambiente virtual. No entanto, para criar raízes consistentes, o relacionamento demandará, em algum momento, uma aproximação física. Ninguém é admitido para um emprego, se casa ou fecha um contrato importante sem efetivamente praticar o saudável e imprescindível hábito do olho no olho.
É preciso entender que o cartão de visitas funciona como uma ficha de depósito do capital social. O crédito, no entanto, não se efetiva compulsoriamente. Para que a relação evolua, o contato inicial e os subsequentes têm de ser feitos com zelo, bom senso e educação. A troca de cartões, por si só, já requer critério e cuidado. De nada adianta colecionar cartões alheios ou distribuir os próprios de forma indiscriminada. Isso, efetivamente, não tem a ver com networking e embute o perigo de uma ação invasiva e inconveniente — risco que se potencializa diante das facilidades proporcionadas pelos avanços tecnológicos.
O que dizer, por exemplo, do indivíduo que, após uma rápida interação em um evento, inclui o endereço eletrônico do outro para envio de todo tipo de mensagem? Sem se ater ao que é pertinente e deixando de investir no aprofundamento daquela relação, o que possibilitaria conhecer melhor o novo contato e identificar afinidades, o emissor transforma as virtudes da internet em armadilha. E-mails inconvenientes e/ou inconsequentes comprometem a imagem do emissor e acabam afastando-o de seus objetivos. O resultado pode ser exatamente o inverso ao pretendido, com o click rápido e inoportuno redundando na inclusão em uma lista nada promissora: a das pessoas a serem mantidas bem longe do convívio cotidiano.
Os recursos tecnológicos não devem ser usados contra nossos interesses, mas a favor deles. A internet e as diversas formas de interação que surgem a cada dia exigem, de fato, gestão mais apurada dos relacionamentos e da imagem pessoal. Quando utilizados de forma consciente e responsável, esses meios são de grande valia para tornar mais robustos os nós da rede de contatos. A tecnologia propicia, também, pesquisar e armazenar informações relevantes sobre determinada pessoa, correlacionar fatos e informações, criar mecanismos que nos auxiliem a nutrir, dar vida e qualidade aos nossos relacionamentos.
A internet é uma vitrine. Se por um lado facilita a interação entre as pessoas, de outro as expõe, deixando destravadas portas que nem sempre gostaríamos de ver franqueadas — pelo menos em certas ocasiões e para determinados interlocutores. Aqui, novamente, educação e bom senso servem de medida para orientar a conduta. Outra ajuda inestimável é o exercício da empatia. Afinal, as benesses e as agruras dos novos tempos fazem parte do cotidiano dos profissionais-cidadãos-internautas de todo o planeta, sendo viável supor que já haja um nível de consciência crítica quanto a abordagens equivocadas e, por vezes, até desastrosas.
Nos períodos de transição de carreira e na pós-aposentadoria, os cuidados devem ser redobrados. A maior disponibilidade para explorar o universo digital pode aguçar a tentação de compartilhar mais e mais mensagens, abarrotando a caixa postal alheia. Como, em geral, são momentos cruciais para a formatação de um novo projeto, a gestão bem “azeitada” do networking torna-se particularmente crucial.
